O que é o método sueco Lagom? A filosofia que ensina a viver com equilíbrio

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O quotidiano parece pedir sempre mais – mais horas de trabalho, mais produtividade, mais compras, mais compromissos -, há uma filosofia sueca que nos convida a fazer exatamente o contrário. Chama-se método sueco Lagom e pode ser uma inspiração para quem procura uma vida mais consciente e equilibrada.

Há dias em que sentimos que estamos sempre a correr. A agenda está cheia, o telemóvel não para de tocar, as listas de tarefas parecem crescer sozinhas e, quando finalmente nos sentamos ao fim do dia, surge aquela sensação desconfortável de que ainda ficou tudo por fazer.

Vivemos numa sociedade que elogia quem faz mais, trabalha mais, produz mais e consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo. Mas será que esta corrida constante nos aproxima realmente da felicidade?

Na Suécia, um dos países frequentemente associado a elevados níveis de qualidade de vida, existe uma palavra que resume uma forma diferente de olhar para o quotidiano: Lagom.

Se nunca ouviu falar deste conceito, talvez se surpreenda ao descobrir que não é uma técnica de produtividade, nem um método de organização pessoal, nem uma nova tendência das redes sociais. O método sueco Lagom é antes uma forma de encarar a vida, baseada numa ideia simples: encontrar o equilíbrio e perceber quando aquilo que temos é suficiente.

Num momento em que tantas mulheres procuram recuperar tempo para si, reduzir o stress e viver de forma mais consciente, o significado de Lagom parece mais necessário do que nunca.

Relaxar e aproveitar a natureza @ Life-Of-Pix_Pixabay
Relaxar e aproveitar a natureza @ Life-Of-Pix_Pixabay

O que é o método sueco Lagom?

Responder à pergunta “o que é o Lagom?” parece simples, mas a verdade é que a palavra não tem tradução direta para português.

Os suecos utilizam-na para descrever algo que está “na medida certa”. Nem demasiado, nem insuficiente.

Pode referir-se à quantidade de comida servida num prato, ao volume da música, ao tempo dedicado ao trabalho ou até à temperatura de uma divisão.

Mas, quando olhamos para a cultura sueca como um todo, percebemos que o conceito vai muito além disso.

O método sueco Lagom tornou-se conhecido internacionalmente por representar um estilo de vida baseado na moderação, no equilíbrio e na procura do suficiente.

Não significa viver com pouco.

Também não significa rejeitar o conforto.

Muito menos implica abdicar dos pequenos prazeres da vida.

O verdadeiro significado de Lagom está em evitar os extremos.

O significado de Lagom vai além da tradução

Uma curiosidade interessante é que muitos suecos não pensam no Lagom como uma filosofia de vida.

Para eles, trata-se simplesmente de uma palavra do dia a dia.

É comum alguém dizer que colocou açúcar “lagom” no café ou que uma refeição estava “lagom”, significando apenas que estava exatamente como deveria estar.

Foi sobretudo fora da Suécia que o conceito começou a ser transformado numa inspiração para quem procura viver com mais equilíbrio.

Livros, documentários e artigos internacionais ajudaram a divulgar esta filosofia sueca, associando-a à simplicidade, ao bem-estar e à qualidade de vida.

Ainda assim, importa fazer uma distinção importante:

embora muitas publicações apresentem o Lagom como “o segredo da felicidade sueca”, não existem estudos científicos que comprovem essa relação direta.

O que existe são investigações que mostram que fatores como o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, relações sociais saudáveis, contacto com a natureza e menor nível de stress contribuem para uma melhor qualidade de vida. O Lagom integra muitos destes princípios, mas não deve ser visto como uma fórmula mágica.

©Pexels
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A história por detrás da palavra Lagom

Provavelmente já encontrou na internet uma história curiosa sobre a origem desta palavra.

Segundo uma tradição popular, Lagom deriva da expressão antiga laget om.

Conta-se que, nos banquetes vikings, um recipiente com bebida circulava entre todos os presentes. Cada pessoa deveria beber apenas o suficiente para que também os restantes membros do grupo pudessem desfrutar da mesma bebida.

A ideia era simples: pensar no coletivo e evitar os excessos.

É uma história bonita e bastante repetida.

No entanto, os linguistas alertam que esta explicação não está comprovada e que deve ser vista mais como uma tradição popular do que como uma origem etimológica confirmada.

Mesmo assim, a narrativa ajuda a compreender aquilo que continua a ser o coração desta filosofia: viver respeitando o equilíbrio, não apenas connosco, mas também com os outros.

Porque é que o método sueco Lagom desperta tanto interesse?

Talvez porque vivemos exatamente no extremo oposto.

Somos constantemente incentivadas a produzir mais.

A comprar mais.

A preencher todos os minutos livres.

A transformar cada hobby numa oportunidade de rendimento.

Até o descanso parece, por vezes, ter de ser produtivo.

Neste contexto, o método sueco Lagom apresenta uma proposta quase revolucionária: talvez não seja preciso fazer sempre mais.

Talvez seja suficiente fazer o que realmente importa.

Esta mudança de perspetiva pode parecer pequena, mas tem impacto em praticamente todas as áreas da vida.

O equilíbrio entre trabalho e vida pessoal

Quando se fala da qualidade de vida na Suécia, surge inevitavelmente o tema do trabalho.

Embora existam profissões exigentes, como em qualquer outro país, a cultura sueca tende a valorizar a eficiência acima das longas jornadas.

Ficar sistematicamente até tarde no escritório não é, necessariamente, visto como um sinal de dedicação.

Em muitas empresas, considera-se mais importante cumprir os objetivos durante o horário normal e reservar tempo para a família, para os amigos, para o descanso e para os interesses pessoais.

Naturalmente, esta realidade não é igual para todas as profissões nem para todos os trabalhadores.

Mas existe uma valorização clara do equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal, um princípio que se aproxima bastante da essência do Lagom.

Para muitas mulheres, sobretudo aquelas que conciliam carreira, família, casa e vida pessoal, esta visão levanta uma questão importante: será que estar constantemente ocupada é realmente sinónimo de sucesso?

Mulher a andar de bicicleta - pasja1000 © Pixabay
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A importância de fazer pausas

Existe outro hábito muito associado à cultura sueca que ajuda a compreender esta filosofia.

Chama-se fika.

À primeira vista pode parecer apenas uma pausa para café.

Na realidade, representa muito mais do que isso.

É um momento reservado para conversar, desligar do trabalho, fortalecer relações e respirar um pouco antes de regressar às tarefas.

Pode acontecer entre colegas, amigos ou familiares.

Quase sempre inclui café, chá ou outra bebida quente e, muitas vezes, um pequeno bolo ou um doce.

Num mundo onde até as refeições são frequentemente feitas em frente ao computador, a fika recorda-nos que parar durante alguns minutos não é tempo perdido.

É investimento no bem-estar.

O método sueco Lagom à mesa: comer sem culpa, mas com consciência

Quando se fala em alimentação saudável, é fácil cair em extremos. Há quem elimine grupos alimentares inteiros, quem siga dietas muito restritivas ou quem viva num ciclo constante entre períodos de grande disciplina e momentos de excesso.

O método sueco Lagom segue uma lógica diferente.

Não existe uma “dieta Lagom”, nem um conjunto de alimentos proibidos. A filosofia está antes na forma como nos relacionamos com a comida.

Comer o suficiente para ficar satisfeita, apreciar os alimentos, evitar o desperdício e reservar espaço para momentos especiais faz parte desta visão equilibrada.

Na Suécia, um bolo durante a fika não é visto como um “pecado”. Faz parte da vida. O importante é que esse momento não se transforme numa rotina de excessos, mas também que não seja vivido com culpa.

É uma abordagem que faz sentido para muitas mulheres que estão cansadas da chamada “cultura das dietas” e procuram uma relação mais tranquila com a alimentação.

Uma casa onde se vive, e não apenas uma casa bonita

Quando pensamos no estilo escandinavo, imaginamos divisões luminosas, móveis em madeira, tecidos naturais e poucos objetos decorativos.

Mas o estilo de vida sueco vai muito além da estética.

Uma casa inspirada no método sueco Lagom não pretende impressionar quem entra pela porta. Pretende facilitar a vida de quem lá vive.

Cada objeto tem uma função.

Há espaço para respirar.

A luz natural é valorizada.

Os materiais tendem a ser duradouros.

Em vez de seguir todas as tendências de decoração, muitas famílias preferem investir em peças de qualidade, que resistam ao tempo e continuem úteis durante muitos anos.

Esta forma de viver também reduz o desperdício e evita compras impulsivas, uma preocupação cada vez mais relevante numa época marcada pelo consumo rápido.

Comprar menos, escolher melhor

© lavnatalia_Pixabay
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Uma das mensagens mais interessantes do método sueco Lagom não é “não compre”.

É antes: “compre apenas aquilo que faz sentido.”

Vivemos rodeadas de publicidade, promoções e compras por impulso. Muitas vezes adquirimos objetos que usamos uma ou duas vezes antes de ficarem esquecidos numa gaveta.

A filosofia Lagom convida-nos a fazer uma pausa antes de passar o cartão.

Preciso mesmo disto?

Vai ser útil daqui a um ano?

Tem qualidade suficiente para durar?

Estas perguntas não servem apenas para poupar dinheiro. Também ajudam a reduzir o desperdício e a criar uma relação mais consciente com aquilo que consumimos.

O que o Lagom nos pode ensinar sobre autocuidado

Durante muito tempo, o autocuidado foi apresentado como algo extraordinário: um fim de semana num spa, uma escapadinha de luxo ou uma rotina de beleza composta por dezenas de produtos.

Mas cuidar de nós próprias pode ser muito mais simples.

O método sueco Lagom lembra-nos que o bem-estar também está nos pequenos gestos repetidos todos os dias.

Dormir o suficiente.

Desligar o telemóvel durante algum tempo.

Ler um livro.

Dar um passeio.

Tomar um café com uma amiga sem olhar constantemente para o relógio.

São momentos discretos, mas que ajudam a recuperar energia física e mental.

Para muitas mulheres, habituadas a cuidar de todos antes de cuidarem de si, esta pode ser uma das maiores aprendizagens do Lagom: encontrar espaço para si própria sem sentir culpa.

Viajar também pode ser um exercício de equilíbrio

Quem gosta de viajar conhece bem a tentação de querer ver tudo.

Há roteiros que incluem três cidades em quatro dias, horários preenchidos desde o pequeno-almoço até à noite e listas intermináveis de locais “obrigatórios”.

O problema é que, muitas vezes, regressamos a casa cansadas e com a sensação de que passámos pelos destinos sem realmente os conhecer.

Aplicar o método sueco Lagom às viagens significa trocar a pressa pela descoberta.

Em vez de correr de monumento em monumento, talvez valha a pena passar mais tempo num bairro, entrar numa pequena livraria, conversar com quem ali vive ou sentar-se numa esplanada apenas para observar o ritmo da cidade.

Viajar desta forma não significa fazer menos.

Significa viver mais.

É também uma forma de viajar mais sustentável, reduzindo deslocações constantes e privilegiando experiências mais autênticas.

A ligação à natureza

Há outro elemento que ajuda a explicar o significado de Lagom: a natureza.

Na Suécia, caminhar numa floresta, passar um dia junto a um lago ou simplesmente aproveitar um parque faz parte da rotina de muitas pessoas.

O contacto com os espaços naturais não é encarado como um luxo reservado às férias.

É uma necessidade.

Diversos estudos têm associado o contacto regular com a natureza à redução do stress, à melhoria do humor e ao aumento da sensação de bem-estar. O Lagom encaixa naturalmente nesta visão, incentivando um ritmo de vida onde existe espaço para respirar, caminhar e desligar.

sunset_©Petig
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Lagom e Hygge: qual é a diferença?

É comum encontrar estes dois conceitos lado a lado, mas não significam a mesma coisa.

O Hygge, associado à Dinamarca, está ligado à ideia de conforto, aconchego e prazer nas pequenas coisas.

Uma manta, velas acesas, uma bebida quente e uma noite tranquila em casa são imagens frequentemente associadas ao Hygge.

Já o método sueco Lagom tem um alcance mais amplo.

Não fala apenas de conforto.

Fala da forma como trabalhamos, consumimos, gerimos o tempo, organizamos a casa e encontramos equilíbrio entre todas as áreas da vida.

Podemos dizer que o Hygge procura criar momentos acolhedores.

O Lagom procura construir uma vida equilibrada.

Nem tudo é perfeito

Apesar da popularidade internacional do conceito, importa evitar uma visão romantizada.

Nem todos os suecos vivem segundo o Lagom.

Nem todos gostam de ver uma palavra comum transformada numa filosofia global.

Vários investigadores recordam que esta ideia foi, em parte, simplificada pela indústria editorial e pelo mercado do desenvolvimento pessoal.

Também a Suécia enfrenta desafios semelhantes aos de muitos outros países: pressão profissional, problemas de saúde mental, dificuldades económicas para algumas famílias e desigualdades sociais.

Por isso, o Lagom não deve ser visto como uma receita infalível para a felicidade.

É antes uma inspiração que pode ajudar cada pessoa a refletir sobre o seu próprio equilíbrio.

Mulher em casa© dandelion_tea-cópia
Mulher em casa© dandelion_tea-cópia

Como aplicar o método sueco Lagom no dia a dia

Se esta filosofia faz sentido para si, talvez não seja preciso mudar completamente de vida.

Pode começar por pequenas mudanças.

Experimente reservar alguns minutos por dia sem notificações.

Planeie menos tarefas para o fim de semana.

Aprenda a dizer “não” quando sente que já assumiu compromissos a mais.

Antes de comprar alguma coisa, espere um ou dois dias e pergunte-se se continua a fazer sentido.

Durante as próximas férias, deixe espaço para a espontaneidade em vez de preencher todos os horários.

São gestos simples, mas que refletem a essência do método sueco Lagom: encontrar aquilo que é suficiente para viver melhor.

Perguntas frequentes sobre o método sueco Lagom

O que significa Lagom?

Lagom é uma palavra sueca que significa, de forma aproximada, “na medida certa”, “quanto baste” ou “nem de mais, nem de menos”. Refere-se à procura de equilíbrio em diferentes aspetos da vida.

O método sueco Lagom é uma filosofia de vida?

Sim. Embora muitos suecos utilizem a palavra de forma quotidiana, fora da Suécia o conceito passou a representar uma filosofia de vida baseada na moderação, no equilíbrio e no consumo consciente.

O Lagom é igual ao minimalismo?

Não. O minimalismo procura reduzir ao essencial. O método sueco Lagom não estabelece um número ideal de objetos nem incentiva a privação. Defende apenas que cada pessoa encontre aquilo que considera suficiente.

Qual é a diferença entre Lagom e Hygge?

O Hygge está mais relacionado com conforto e bem-estar emocional. O Lagom tem um âmbito mais amplo e aplica-se à forma como trabalhamos, consumimos, descansamos e organizamos a vida.

Talvez o suficiente seja, afinal, o bastante

Há uma frase que resume bem o espírito desta filosofia: nem de mais, nem de menos.

Num tempo em que tantas mulheres vivem divididas entre a carreira, a família, os amigos, as responsabilidades e a constante pressão para serem tudo ao mesmo tempo, o método sueco Lagom oferece uma reflexão importante.

Talvez não seja preciso acrescentar mais uma tarefa à agenda.

Mais uma compra ao armário.

Mais uma obrigação à lista.

Talvez o verdadeiro desafio seja aprender a reconhecer quando já temos o suficiente.

Porque, no fim de contas, viver com equilíbrio não significa viver menos.

Significa viver melhor.

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