“CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa” em Coimbra

"CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa" em Coimbra

Sessenta e cinco anos após a publicação de “Carta a uma Jovem Portuguesa”, de Artur Marinha de Campos, a criadora e atriz Graça Ochoa apresenta CARTA, um espetáculo que revisita e confronta o passado e o presente da condição feminina. A estreia acontece a 26 de abril 2026, no Convento São Francisco, em Coimbra, numa criação da Monstro Colectivo que propõe uma reflexão urgente dirigida a jovens e ao público em geral.

Partindo da icónica “Carta a uma Jovem Portugues”a, publicada em 1961 no jornal Via Latina, “CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa” emerge como um gesto artístico de questionamento e atualização. O espetáculo convoca temas como o namoro, a violência nas relações, o prazer, a sexualidade e a relação com o corpo, explorando-os a partir de uma perspetiva feminina profundamente enraizada na experiência da sua criadora.

"CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa" em Coimbra
“CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa” em Coimbra

Num cruzamento entre passado e presente, Graça Ochoa constrói uma dramaturgia que evidencia continuidades, rupturas e transformações na vivência da feminilidade ao longo das últimas décadas. O que mudou — e o que permanece — nas dinâmicas afetivas? Que heranças persistem, mesmo após conquistas sociais significativas? E que novas cartas precisam ainda de ser escritas?

Mais do que revisitar um documento histórico, CARTA propõe-se como um rascunho contemporâneo: uma carta dirigida a todos, que ecoa questões ainda por resolver. O espetáculo nasce da experiência anterior da criadora numa visita encenada à exposição Primaveras Estudantis – da crise de 1962 ao 25 de Abril, apresentada em Coimbra em 2023, onde o contacto com a carta original e com testemunhos sobre a condição feminina despertou a necessidade de aprofundar estas reflexões em palco. O espetáculo é acompanhado por uma seleção musical eclética e surpreendente que atravessa décadas de desejo, rebeldia e intimidade, revelando como as diferentes manifestações do amor se reinventam entre o silêncio, a vulnerabilidade e a libertação.

Reconhecendo que, apesar das transformações sociais, a violência contra as mulheres continua a ser uma realidade, esta criação assume-se como um espaço de pensamento crítico e diálogo intergeracional, convidando o público a refletir sobre o presente e a imaginar o futuro.

No dia 27 de abril, em sessão dupla (10h00 e 14h30), o projecto será apresentado a escolas.

Graça Ochoa
Graça Ochoa

Ficha Artística
Direção Artística e Interpretação: Graça Ochoa
Produção: Monstro Colectivo – Associação Cultural
Produção Executiva: Tânia Baldé
Encenação e Apoio à Direção Artística: Jaime Mears
Apoio à Dramaturgia: Inês Rosado
Conceção Plástica: Carla Martínez
Vídeo: Vanessa Fernandes
Desenho de Luz: Pedro Fonseca
Música “Nova Carta”: Muleca XIII e Jori Collignon
Consultoria Teórica: Lucinda Saldanha
Cartaz: Hugo Henriques\

“Vou escrever para ti jovem portuguesa

A minha realidade é igual à tua. A minha liberdade não é igual à tua. Separa-nos um muro alto e espesso, que nem tu nem eu construímos.
Só nos é permitido atravessar o muro para escolhermos. E eu escolho-te a ti jovem portuguesa. Tu que estás submissa e passiva no canto onde te procuro. Tu que vens abúlica e absorvente para eu moldar. Tu para quem o amor é passividade, dever e obrigação. Tu vítima de todos nós e de ti mesma (…)

Hoje temos mais do que nunca necessidade de ti. Jovem portuguesa! (…) queria escrever-te directamente porque não te conheço e tu não me conheces. Tu és a imanência carnal que os jovens insultam e desejam. Mas tens de ser no futuro a jovem ao lado do jovem. A rapariga ao lado do rapaz. Tens de derrubar connosco o muro que nos separa. Tens de entrar no nosso mundo errado, mas errado por tu não estares lá.

Só assim verdadeiramente te conhecerei. Saberei o sabor do teu corpo, a cor dos teus cabelos e dos teus olhos (…)”

Excerto da “Carta a uma jovem Portuguesa”, 1961

Quem é Graça Ochoa?

É actriz, criadora, intérprete com valências na área da dança, do canto e do clown. Tem curso e mestrado em teatro pela ESMAE Porto e procura complementar a sua formação académica com a realização de cursos e workshops em teatro e dança.

O seu percurso como intérprete, é marcado pela colaboração com a Circolando em várias produções da companhia desde o seu início.

É também marcado por uma aptência para desenvolver projectos para crianças e jovens dos quais habitualmente é criadora e intérprete, destaca: A Galinha da Minha Vizinha, Sopa de Jerimú, Viúva Papagaio e Couve Rosa, Morango Amarelo dirigidos a um público familiar.

Em 2020, cria Monstro Colectivo, colectivo de artistas das artes performativas e visuais sediado em Setúbal e destaca a direcção artística de Avós – Histórias Germinadas no Quintal, de O Homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará a partir de O Memorial do Convento e a visita encenada à exposição Primaveras Estudantis da crise de 62 ao 25 de Abril.

MONSTRO COLECTIVO – Associação Cultural

É uma associação criada em Setúbal em 2020 com o objetivo de desenvolver atividades de artes performativas – circenses, dança e teatro –, bem como a multidisciplinaridade das áreas de cinema, multimédia e artes visuais.

Encarregue do Espaço Monstro, situado no bairro da Bela Vista em Setúbal, espaço que promove aulas e formações, é espaço de ensaios e escritório.

A formalização da associação surge naturalmente depois de vários anos de colaboração conjunta dos seus membros em diferentes projectos, tornando-se evidente a constante necessidade e clara vantagem desta rede de apoio mútuo no acto de criação, produção e circulação de projectos.

Embora com um núcleo coeso de membros fundadores, a Monstro Colectivo quer-se uma estrutura aberta a outros artistas com que naturalmente surjam sinergias.

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