Durante décadas, os produtos menstruais fizeram parte da vida das mulheres sem que uma pergunta aparentemente simples tivesse uma resposta científica tão clara quanto seria de esperar: quanto sangue consegue realmente absorver ou conter um penso, um tampão, um copo ou um disco menstrual?
Em 2023, um estudo publicado no BMJ Sexual & Reproductive Health procurou responder a essa questão de uma forma diferente. Em vez de testar apenas com líquidos que simulam o fluxo menstrual, os investigadores utilizaram glóbulos vermelhos humanos concentrados para avaliar a capacidade de 21 produtos menstruais.
A notícia foi muitas vezes resumida como “os pensos só começaram a ser testados com sangue em 2023”. Mas esta frase é demasiado absoluta.
O que o estudo permite dizer é mais específico: foi realizada uma comparação de 21 produtos menstruais utilizando glóbulos vermelhos humanos para medir a sua capacidade de absorção ou retenção, preenchendo uma lacuna na investigação científica.
E os resultados são particularmente interessantes para quem tem menstruações abundantes.

A pergunta que estava por responder
O estudo foi realizado por investigadores da Oregon Health & Science University, nos Estados Unidos, e publicado online a 7 de agosto de 2023.
Foram analisados 21 produtos menstruais disponíveis comercialmente, incluindo tampões, pensos higiénicos, copos menstruais, discos menstruais e roupa interior menstrual.
A ideia era simples: perceber quanto fluido cada produto conseguia suportar antes de atingir a sua capacidade máxima.
Mas havia uma diferença importante relativamente a muitos testes utilizados anteriormente: os investigadores recorreram a glóbulos vermelhos humanos concentrados e expirados.
Não se tratava, portanto, de sangue menstrual recolhido de mulheres. E esta distinção é importante. O fluido menstrual não é simplesmente sangue: é constituído por sangue, tecido proveniente do revestimento do útero e outros componentes.
Ainda assim, os glóbulos vermelhos humanos aproximam-se mais das características do sangue do que a água ou algumas das soluções utilizadas para testar produtos absorventes, que vemos em publicidades.
Os autores estavam particularmente interessados nesta questão por causa da hemorragia menstrual intensa, ou heavy menstrual bleeding. Trata-se de uma situação que pode afetar até um terço das pessoas que menstruam e que pode ter consequências importantes na qualidade de vida.
Não foi a primeira vez que um penso foi alguma vez testado
É aqui que vale a pena desfazer um mito que entretanto se espalhou. Não é rigoroso afirmar que antes de 2023 nunca nenhum penso tinha sido testado com sangue.
O estudo não prova isso.
Os fabricantes realizam testes de desempenho dos seus produtos e já existia investigação sobre perda de sangue menstrual e utilização de produtos menstruais muito antes de 2023.
O que os investigadores fizeram foi outra coisa: criaram uma comparação laboratorial entre diferentes categorias de produtos menstruais utilizando glóbulos vermelhos humanos.
Os próprios autores chamam a atenção para uma diferença importante: os tampões estavam sujeitos a testes de capacidade de absorção regulamentados pela indústria, enquanto outros produtos menstruais não tinham necessariamente o mesmo tipo de dados padronizados disponíveis.
Isto tornou-se ainda mais relevante à medida que apareceram mais alternativas aos tampões e pensos tradicionais.
Hoje existem copos, discos e diferentes tipos de roupa interior menstrual, por exemplo. Saber quanto cada produto consegue conter pode ser importante não apenas para escolher um produto mais adequado, mas também para ajudar a compreender a quantidade de sangue perdida durante uma menstruação.

O resultado mais surpreendente
Dos produtos analisados, o que apresentou maior capacidade foi um disco menstrual, que conseguiu conter cerca de 80 mililitros.
Quando os investigadores analisaram os discos em conjunto, a capacidade média foi de aproximadamente 61 mililitros.
Os tampões, os pensos de elevada absorção e os copos menstruais apresentaram capacidades que, de uma forma geral, ficaram na ordem dos 20 a 50 mililitros, embora houvesse diferenças entre produtos.
A roupa interior menstrual apresentou uma capacidade bastante mais baixa no teste, com uma média de cerca de 2 mililitros entre os produtos analisados.
Estes números podem parecer surpreendentes, mas não devem ser interpretados como um ranking absoluto dos melhores produtos menstruais. E todas somos diferentes!
Um disco menstrual, por exemplo, não funciona da mesma maneira que um penso. Um recolhe o fluxo; o outro absorve-o. A forma de utilização, o conforto, a frequência com que é necessário trocar o produto e as características individuais do fluxo menstrual também fazem diferença.
Além disso, o estudo analisou apenas 21 produtos. Não é possível utilizar os resultados para dizer que todos os produtos de uma determinada categoria têm exatamente a mesma capacidade.
E o famoso líquido azul?
É impossível falar deste assunto sem lembrar a imagem que durante anos apareceu na publicidade dos pensos: uma gota de líquido azul colocada sobre o produto para demonstrar a absorção.
Essa imagem tornou-se tão habitual que é fácil concluir que os produtos menstruais eram todos testados com um líquido azul que nada tinha a ver com sangue.
Mas é necessário separar publicidade e os testes laboratoriais.
O líquido azul tornou-se sobretudo uma convenção visual. Permite demonstrar a absorção sem mostrar sangue menstrual, tornando a publicidade mais facilmente aceitável para um público generalista.
Não é correto concluir, apenas por causa dessa publicidade, que todos os testes de desempenho dos pensos eram feitos com água azul.
A realidade é bastante mais complexa e varia consoante o produto, o fabricante e o tipo de teste.
A FDA (U.S. Food & Drug Administration), nos Estados Unidos, tem orientações específicas relacionadas com produtos menstruais e com os testes de desempenho e segurança a que devem ser sujeitos. A agência também disponibiliza informação sobre diferentes tipos de produtos menstruais e a sua utilização.
Por isso, a ideia de que durante décadas “ninguém testou os pensos” seria enganadora.
O que a investigação de 2023 mostra é que a ciência ainda precisava de melhores dados comparáveis sobre a capacidade dos diferentes produtos menstruais utilizando um material mais próximo do sangue humano.
Porque é que isto interessa às mulheres?
A resposta vai muito além da escolha entre um penso, um tampão ou um disco.
Uma das questões que os investigadores queriam abordar era precisamente a dificuldade em avaliar a perda de sangue menstrual.
Quando uma mulher chega a uma consulta e diz que tem uma menstruação muito abundante, uma das informações que pode fornecer é quantos pensos ou tampões utiliza por dia.
Mas esse número, sozinho, não diz tudo.
Um penso pequeno e um penso de elevada absorção (devem ser trocados a cada 3 ou 6 horas no máximo) não têm a mesma capacidade. Um tampão normal (só deve ser usado 4 a 8 horas no máximo) não contém a mesma quantidade que um tampão de maior absorção. E um disco menstrual funciona de maneira completamente diferente.
Também não sabemos, apenas pelo número de trocas, se o produto estava completamente saturado ou se foi mudado por conforto, higiene ou porque chegou o momento recomendado para a troca.
Ter uma ideia mais objetiva da capacidade dos produtos pode, por isso, ajudar os profissionais de saúde a compreender melhor aquilo que as mulheres descrevem quando falam de fluxo menstrual intenso.
É uma questão particularmente relevante porque uma hemorragia menstrual intensa pode afetar a vida quotidiana e pode estar associada a problemas de saúde que merecem avaliação médica.

Uma questão de saúde feminina que demorou a ser medida
A parte mais interessante desta história não é o número de 80 mililitros. É o facto de uma questão aparentemente tão básica – quanto sangue consegue conter um produto menstrual? – ainda necessitar de investigação científica comparativa.
Os produtos menstruais são utilizados por cerca de 1,6 biliões(!) mulheres todos os meses. Durante anos, foram escolhidos com base em categorias como “normal”, “super”, “noturno” ou “extra absorvente”, mas esses nomes não são uma unidade universal de medida.
O estudo publicado em 2023 ajudou a colocar números nessa realidade.
E mostrou também que diferentes produtos podem apresentar capacidades muito diferentes.
Um disco menstrual testado conseguiu conter 80 mililitros. Alguns produtos de roupa interior menstrual ficaram muito abaixo desse valor. Pensos, tampões e copos apresentaram valores intermédios, com diferenças entre produtos.
Não significa que um produto seja necessariamente melhor do que outro.
Significa que a capacidade real de um produto é uma característica que merece ser conhecida e estudada, sobretudo quando se fala de mulheres que têm fluxos menstruais muito intensos.
Nota: cerca de 1,6 bilião de mulheres e meninas usam produtos menstruais no mundo. De acordo com dados do Banco Mundial e da UNICEF, existem no total cerca de 2,1 biliões de pessoas que menstruam a nível global, mas estimam-se em mais de 500 milhões aquelas que enfrentam a pobreza menstrual e não têm acesso regular a estes itens.
Mais do que uma história sobre pensos
A história de 2023 não é, afinal, a história de uma indústria que passou décadas sem testar os seus produtos.
É uma história sobre uma área da saúde feminina em que ainda existem perguntas por responder.
Também é um exemplo de como uma coisa que parece óbvia pode revelar-se mais complexa quando começa a ser medida cientificamente.
Algo mais rigoroso e mais interessante: em 2023, investigadores compararam a capacidade de 21 produtos menstruais utilizando glóbulos vermelhos humanos e encontraram diferenças significativas entre eles.
É uma pequena mudança na forma de contar a história, mas uma grande diferença na precisão.
Porque quando falamos de saúde menstrual, as mulheres merecem mais do que imagens de líquido azul e expressões vagas como “alta absorção”. Merecem investigação, dados e informação que lhes permita compreender melhor o funcionamento do seu próprio corpo.
Fontes
- BMJ Sexual & Reproductive Health, estudo “Red blood cell capacity of modern menstrual products: considerations for assessing heavy menstrual bleeding”, publicado online em 7 de agosto de 2023.
- PubMed / National Library of Medicine, registo e resumo do estudo.
- National Library of Medicine / PMC, texto integral do estudo.
- U.S. Food & Drug Administration (FDA), informação sobre produtos menstruais e testes de desempenho.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC), informação sobre saúde menstrual.


