Murasaki Shikibu: a japonesa de uma das grandes obras da literatura

Há mais de mil anos, no Japão, uma mulher escreveu uma história que atravessaria séculos, gerações e fronteiras. Chamava-se Murasaki Shikibu e é considerada uma das figuras mais importantes da literatura japonesa.

Viveu durante o período Heian (794-1185), uma época de grande desenvolvimento cultural na corte imperial japonesa. Num mundo onde as mulheres tinham uma presença limitada em muitas esferas da sociedade, encontrou na escrita uma forma de expressão e deixou uma obra extraordinária: O Romance de Genji (Genji Monogatari).

A dimensão da sua criação é ainda mais impressionante quando pensamos na época em que viveu. Muito antes de as mulheres conquistarem o acesso à Educação e à publicação, em condições de igualdade com os homens, Murasaki Shikibu construiu uma obra literária de enorme complexidade, que continua a ser estudada e lida em todo o Mundo.

Uma mulher cujo verdadeiro nome se perdeu na História

Não sabemos como se chamava realmente Murasaki Shikibu. A designação pela qual ficou conhecida é um nome literário, associado à personagem Murasaki, de O Romance de Genji, e a um cargo administrativo ligado à família do pai.

Acredita-se que tenha nascido por volta de 973 ou 978, em Quioto, embora as datas exatas da sua vida não sejam consensuais. Pertencia a uma família aristocrática de posição relativamente modesta, os Fujiwara.

O pai, Fujiwara no Tametoki, era um homem culto e ligado à literatura chinesa. Ao contrário do que era habitual na época, Murasaki teve oportunidade de acompanhar parte da educação destinada ao irmão e desenvolveu conhecimentos literários pouco comuns entre as mulheres da sua posição.

Esta formação viria a marcar profundamente a sua escrita.

Casou-se com Fujiwara no Nobutaka e teve uma filha. Ficou viúva poucos anos depois do casamento, uma experiência pessoal que antecedeu o período em que começou a desenvolver a sua obra literária mais conhecida.

A sua vida está, contudo, envolta em algumas incertezas. Os documentos que chegaram até nós não permitem reconstruir com precisão todos os acontecimentos da sua biografia.

Murasaki Shikibu esteve nas notas de 2000 yen no Japão
Murasaki Shikibu nas notas de 2000 yen no Japão

A vida na Corte imperial japonesa

Murasaki Shikibu viveu numa sociedade aristocrática onde a cultura, a poesia, a caligrafia e o domínio da literatura eram elementos fundamentais da vida na Corte.

As mulheres da aristocracia tinham uma presença importante nos círculos culturais, embora estivessem sujeitas a convenções sociais e a limitações próprias da época. Muitas escreviam poesia, mantinham diários e produziam narrativas literárias em japonês.

A escrita em caracteres kana, associada à expressão literária feminina e conhecida também como onna-de (termo histórico japonês que significa literalmente “mão de mulher”), permitiu o desenvolvimento de uma tradição literária particularmente rica.

Murasaki acabou por integrar a Corte como dama de companhia da imperatriz Shōshi, filha de Fujiwara no Michinaga, um dos homens mais poderosos da política japonesa daquele período.

Foi neste ambiente que escreveu parte do seu diário, hoje uma fonte importante para conhecer a vida na Corte imperial, os seus rituais, as relações entre os membros da aristocracia e o quotidiano das mulheres que ali viviam.

O diário revela também uma observadora atenta do comportamento humano. Murasaki não se limitava a descrever cerimónias e acontecimentos: registava impressões, tensões, críticas e reflexões sobre as pessoas que a rodeavam.

Genji Monogatari: uma obra que atravessou mil anos

O seu legado maior é “Genji Monogatari”, conhecido internacionalmente como “The Tale of Genji” ou “O Romance de Genji”.

Escrito no início do século XI, é frequentemente apresentado como o primeiro romance da história da literatura mundial, embora a definição de primeiro romance dependa dos critérios literários utilizados.

A obra tem 54 capítulos e acompanha a vida de Hikaru Genji, um príncipe imperial fictício que perde a possibilidade de suceder ao trono e constrói a sua própria trajetória na sociedade aristocrática.

Mas a narrativa está longe de ser apenas uma história de amor.

Ao longo dos capítulos, Murasaki Shikibu explora as relações humanas, os desejos, a ambição, o ciúme, a passagem do tempo, a perda e a condição das mulheres na sociedade aristocrática japonesa.

A autora demonstra uma capacidade notável para observar as contradições humanas. As relações amorosas, por exemplo, são frequentemente marcadas por desigualdades, dependência e sofrimento, refletindo também a posição vulnerável de muitas mulheres naquele contexto social.

A riqueza psicológica das personagens, a construção da narrativa e a atenção aos pormenores da vida quotidiana ajudam a explicar a importância literária que continua a ser atribuída a este livro.

Um dos aspetos mais interessantes da obra de Murasaki Shikibu é a forma como retratou a condição feminina.

Em “O Romance de Genji”, a autora apresenta diferentes mulheres, com experiências e personalidades distintas. Mostra as suas expectativas, frustrações, rivalidades e sentimentos, dando-lhes uma profundidade psicológica pouco habitual na literatura da época.

Também no seu diário deixou observações críticas sobre o comportamento de algumas pessoas da corte, incluindo homens e mulheres.

É precisamente esta capacidade de observar a sociedade e transformar experiências humanas em literatura que torna a sua obra tão relevante para os leitores contemporâneos.

A lenda da Lua e o templo de Ishiyama-dera

Uma tradição lendária conta que a escritora terá encontrado inspiração para começar “O Romance de Genji” durante uma visita ao templo, contemplando a Lua cheia refletida nas águas do lago Biwa.

É importante distinguir a tradição da documentação histórica: não existe confirmação de que tenha sido precisamente naquele local e naquela ocasião que começou a escrever o romance.

Ainda assim, Ishiyama-dera mantém uma ligação histórica e cultural muito forte à memória da escritora. O templo conserva representações de Murasaki Shikibu e é um dos lugares associados à sua vida e ao seu legado literário.

Um legado que continua vivo

Murasaki Shikibu morreu provavelmente nas primeiras décadas do século XI, mas a data e as circunstâncias da sua morte permanecem desconhecidas.

A sua obra continuou a ser copiada, estudada e reinterpretada ao longo dos séculos. “O Romance de Genji” tornou-se uma referência incontornável da literatura japonesa e inspirou pinturas, ilustrações, peças de teatro e outras manifestações artísticas.

A sua importância é também reconhecida fora do Japão. A personagem da escritora foi homenageada na nota japonesa de 2000 ienes, emitida em 2000, que apresenta uma representação relacionada com “O Romance de Genji”.

Mais de mil anos depois, Murasaki Shikibu continua a ser uma referência para quem estuda a história da literatura e o papel das mulheres na cultura.

A sua história recorda-nos que a criação literária feminina não é uma conquista recente. Muito antes de as mulheres poderem publicar livremente, ocupar universidades ou participar em igualdade na vida intelectual, já havia escritoras a produzir obras extraordinárias.

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Murasaki Shikibu © Direitos Reservados
Murasaki Shikibu © Direitos Reservados