Quando se fala em política, muitas vezes pensa-se em gabinetes distantes, debates parlamentares ou decisões tomadas atrás de portas fechadas. Mas, no Brasil, um movimento tem mostrado que a política também nasce da vida quotidiana, da resistência e da criatividade de quem historicamente foi afastada dos centros de decisão. É esse o espírito do livro “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras”, organizado por Anielle Franco e Ana Carolina Lourenço, que reúne textos, memórias, discursos e projetos de lei de mulheres negras que têm desafiado as estruturas de poder e proposto novas formas de pensar a Democracia.

Livro “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras”
A organização da obra não é um detalhe: ela reflete a trajetória e a luta das próprias autoras.
Anielle Franco, jornalista, educadora e atual Ministra da Igualdade Racial do Brasil, carrega consigo a herança de luta da irmã, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. Desde então, Anielle tem-se afirmado como uma voz incontornável no feminismo negro e na defesa de Direitos Humanos, colocando a memória de Marielle como motor de transformação social.
Já Ana Carolina Lourenço é investigadora e ativista ligada ao movimento Mulheres Negras Decidem, atua como articuladora política, trazendo para o debate a necessidade de garantir representatividade real às mulheres negras nas estruturas de poder.
Ao juntarem esforços, ambas criaram um livro que é, ao mesmo tempo, arquivo e manifesto: nele se encontram experiências passadas e propostas para o futuro.

O que propõe o livro
A obra parte de uma pergunta central: como as mulheres negras brasileiras têm imaginado e praticado novas formas de política? A resposta está numa coletânea de textos que vai muito além da denúncia da exclusão. O que encontramos são propostas concretas, estratégias de resistência, criações culturais e legislativas, reflexões sobre a vida e o poder.
A imaginação, aqui, não é fantasia; é ação. É a capacidade de pensar o que ainda não existe e de transformar em realidade. O livro mostra que, ao longo da história, mulheres negras no Brasil não se limitaram a resistir, mas sempre criaram alternativas. Criaram políticas públicas, ocuparam cargos, escreveram leis, ergueram movimentos sociais, elaboraram teorias e, acima de tudo, mantiveram viva a esperança de uma sociedade mais justa.

Estrutura e diversidade de vozes
O livro “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras” está dividido em duas partes complementares.
Na primeira, “Ecos do agora”, o foco recai sobre o presente: as vozes de mulheres negras que hoje ocupam espaços políticos e enfrentam o racismo e o sexismo dentro das instituições. É uma fotografia do tempo em que vivemos, mas feita por quem sente diariamente o peso das exclusões e, ainda assim, insiste em abrir caminhos.
A segunda parte, “Itinerário do fazer”, mergulha nas práticas históricas e nas criações que moldaram o ativismo negro feminino no Brasil desde a redemocratização. Aqui, o leitor encontra discursos, entrevistas, projetos de lei e relatos pessoais que revelam a densidade e a diversidade da ação política dessas mulheres.
Entre as vozes reunidas estão nomes como Benedita da Silva, primeira senadora negra do Brasil; Lélia Gonzalez, pensadora fundamental do feminismo negro; Luiza Bairros, ministra da Igualdade Racial; Érica Malunguinho, primeira deputada estadual trans do país; e, claro, Marielle Franco, cuja atuação e legado atravessam toda a obra. A diversidade de perfis — parlamentares, ativistas, intelectuais, artistas — mostra que a política não cabe numa única forma de expressão.

Escrevivência: quando vida e política se encontram
Um dos conceitos que atravessa o livro é o da “escrevivência”, termo cunhado por Conceição Evaristo. Trata-se de escrever a partir da vida, assumindo que a experiência pessoal é também experiência coletiva, política, histórica. Nos textos reunidos, não há separação entre corpo, memória e ação política. O que se lê são histórias de vida transformadas em força política — algo que dá ao livro uma dimensão sensível e profundamente humana.
Essa abordagem aproxima o leitor: em vez de uma teoria distante, encontramos testemunhos que revelam a violência estrutural, mas também a criatividade e a coragem de quem constrói alternativas todos os dias.
O Brasil é um país em que mais de 28% da população se identifica como mulher negra, mas a sua presença em espaços de poder ainda é mínima. O livro evidencia esse contraste e insiste: não há democracia plena sem a participação efetiva dessas mulheres.
Num contexto em que crises sociais, económicas e sanitárias — como a pandemia — agravaram as desigualdades, a radical imaginação política das mulheres negras brasileiras surge como farol. Ela mostra que é possível pensar outros futuros, menos desiguais, mais plurais, mais humanos.
Além do Brasil, a obra tem eco internacional. Em Portugal, onde também há uma longa história de invisibilidade das mulheres negras, a leitura deste livro convida a refletir: quantas vozes semelhantes permanecem silenciadas no país? Que caminhos poderiam ser abertos se essas vozes fossem ouvidas e valorizadas?
Mais do que um livro, “A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras” é um convite a escutar, a aprender, a questionar os limites da política tradicional. Um convite a reconhecer que as mulheres negras não são apenas parte da história: elas são autoras de futuros possíveis.
Para qualquer mulher interessada em política, feminismo e justiça social, esta obra é uma fonte de inspiração e de força. Ela lembra-nos que imaginar é um ato profundamente político e que, quando a imaginação é radical, pode transformar o Mundo.


